segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os sete pecadores rurais


Ao amigo Ezupério de Isaura, por gostar de coisas simples

Pensem comigo: se os famosos sete pecados são “capitais”, eles se destinam exclusivamente aos moradores da “capital”. Certo. Então, seguindo esse raciocínio que parece lógico, quem mora na roça precisa de pecados próprios. Sim, precisa. Senão vão dizer que é preconceito. E deve mesmo ser. Pelo jeito, querem interferir até no modo de pecar do sertanejo.
Um revolucionário dirá: “é censura”. Um advogado alterado: “é contra a lei”. Um político, que usa sempre do mesmo discurso: “é antidemocrático”. Um professor: “é a globalização”. O padeiro, com medo, pedirá: “ deixem a gula livre”. Os banqueiros se posicionarão a favor dos avarentos. Os padres, enfurecidos, gritarão: “jogue esse herege desse Erikson na fogueira”.
Mesmo com apocalípticos e integrados ao lado, o que é certo é certo: cada um dança conforme a música que toca. Portanto, sob riscos de aplausos e morte, hei de apresentar a tese que irá revolucionar o mundo. Assim como “o sertão vai virar mar”, conheçam o grito de independência dos sertanejos, os sete pecadores rurais:
1 – Sameado- aquele cara esfomeado, agoniado, que vive à beira do fogão, apressando a cozinheira, esperando comida. É preciso cuidado: ansiedade, para quem é da roça, não é bom. Ter o olho maior que a boca é pior ainda.
2 – Farturento – esse vive na fartura e tudo é motivo de festa. Qualquer coisinha já mata boi, porco, galinha. No casamento das filhas convida todo mundo e compra os tachos maiores que encontrar, nas quengas coloca mais frango que fubá. O risco é ficar endividado fácil.
3 – Gongo – sabe aquele bicho preto que parece uma minhoca, só que maior, e quando a gente trisca já enrola? Pois é, tem muita gente que também gosta de enrolar, mas diferentemente do gongo, esse enrola ao comprar e não pagar.
4 – Olho gordo – é o famoso invejoso. Não pode ver nada que quer. Se o vizinho faz uma horta, também faz. Se o irmão compra uma antena parabólica, uma bicicleta ou um jegue, também quer. Não importa as prestações. Compra carro financiado só pra competir. E o problema é quando não pode ter, aí o que faz é agorar as coisas dos outros.
5 – Gaiato (exibido) – esse sempre morre cedo. É aquele que gosta de mexer com filhas e mulheres alheias. Se acha todo esperto, mas esquece que pais e cornos são valentes e que espingarda também mata gente.
6 – Canguinha (mão-de-vaca) – o que não solta dinheiro nem que a galinha nasça dente. O arroz é de grão contado e na panela de feijão só tem água. Só vive de engordar gado e esconder a fortuna no colchão. Só usa roupa rasgada e havaiana. Nega até a morte que é rico.
7 - Linguarudo – Esse adora calçadas e cozinhas. Sabe descrever a roupa que todo mundo estava vestido ontem e conhece todas as meninas grávidas só de olhar. Discorda piamente do famoso ditado popular: “o peixe morre pela boca”. Esse, quando morrer, vai precisar de dois caixões: um pra ele, outro pra língua.
É isso. Espero que você não tenho dado risada disso aqui, é sério. Aos pecadores, se não cuidarem, hão de queimar no fogo do inferno.

sábado, 22 de agosto de 2009

Homens de um preço só


Ao amigo Uberdan Alves

- Qué dá uma oiada nas pedinha lá?
- Nóis óia. O material é bom?
- Bom! Tu confia, não confia?
- Boto fé.
- Então pronto.

O destino é de claridade muita, de luz diurna, preferencialmente. No chão, uma grande bacia de alumínio cheia d´àgua, onde os cristais rutilados repousam. Firme nas mãos calejadas do garimpeiro está uma escova de cerdas amarelas, que passeia, tirando o restante de terra branca que ainda impede o brilho das pedras.

- Éééééé - diz o comprador de pedra, levantando, após olhar o material, com uma baita dor nas costas.
- Bom, né?
- Tu deve ter mió aí, não?
- Tem nada moço, os bom aqui tu sabe que nóis mostra é só pra tu.
- É isso aí – diz, num suspiro, o enganado comprador – Tem que vender é pra nóis, esses chinêis de fora vem e fica com o lucro das coisa aqui.
- Não moço, aqui ninguém vende nada pra chinêis não – conta o garimpeiro que semana passada vendeu todo o melhor das suas pedras para os caras de olhos puxados, que de tão fechados, não viram os refugos irem junto pra balança.

Só quem conhece o peso de uma alavanca, o valor de um quinto e o risco de viver em buracos de grandes profundidades, sabe que garimpeiro não mente, valoriza cada gota de suor derramada.

- Tu tá pedino quanto niçaqui?
- Fala aí teu preço...
- Falaí moço, tu não é o dono das pedra?
- Tu confia, não confia?
- Boto fé!
- To pedindo aí mil o quilo.
- Tu é doido? Não vale não.
- Rá rá rá...Não vale o que moço?
- Aí nóis não faz negoço. Vou te dizer uma coisa, aquelas que comprei tua de novecentos tá lá sem vender, não achei mais de oitocentos, tu confia, não confia?
- Oitocentos o que, moço?
- Pra que eu ia mentir pra tu?
- Fala aí quanto é que tu dá?
- Nessas daí dou duzento e é meu preço.
- Quá, nóis não faz negoço não. Dá umeno quinhento.
- Duzento.
- Quaticento?
- Duzento.
- Trezento?
- Duzento.
- Pesa isso aí...

Globo x Record – o público em meio a fogo cruzado


“Isso é uma vergonha” – diria Bóris Casoy. O empréstimo da frase célebre do jornalista, é para não dizer piores sobre a situação que chegou a televisão brasileira. As duas maiores emissoras do país desceram do salto e resolveram travar uma briga que é, descaradamente, de poder. De um lado, a suja Globo, do outro, a mal lavada Record. E no meio, os telespectadores que já não sabem mais em quem acreditar.
O que se espera de um veículo de comunicação, pelo menos teoricamente, é um trabalho voltado exclusivamente para o bem comum. Eis que é o interesse público que deveria norteá-lo. Que muitos sobrepõem outros interesses, isso é inegável, mas quando assim, disfarçam e tentam conquistar a confiança das pessoas. O perigo está ai.
Nessa briga entre Globo e Record, as duas estão certas. Pelo menos assim é que ambas se defendem, apresentando fatos, históricos ou não, dados e justificativas para a eficácia do discurso que elas construíram. Para alguém que acompanha as duas programações, no mínimo esperado, certamente se encontra confuso. Se uma acusa e ataca veementemente com provas e a outra se defende com as mesmas armas, onde estaria a verdade tão primada pela comunicação séria? Quem está certo?
As emissoras certamente trazem para essa batalha, embaixo do braço, a biografia de Assis Chateaubriand. O grande magnata da comunicação, que foi quem trouxe, inclusive, a televisão para o Brasil. Chatô, como era conhecido, soube bem o preço de uma liderança, tanto para conquistá-la como para perdê-la. A busca de inspiração, da Globo é pelo medo de perder a hegemonia conquistada ao longo do tempo, da Record é pela esperança de tomar para si o primeiro lugar, como vem tentando [e conseguindo em alguns momentos].
Toda essa baixaria é mesmo uma mancha para o jornalismo. O que não estão pensando as pessoas, as conscientes, sobre a profissão? Não deveria existir uma verdade? Se bem notarem o que existe é a “sua” verdade, que camufla busca de poder, interesses econômicos e políticos. E é sempre o público que acaba pagando o pato, vítimas de bombardeios das piores espécies [ou por que não dizer das melhores?].

domingo, 26 de julho de 2009

Mamão com açucar


Feita sob encomenda


O mundo é cor-de-rosa, todos são felizes. Ninguém mais se cumprimenta com um puro “bom dia” na rua. Agora, são beijos e abraços sinceros quando se encontra um conhecido. Homens andam de mãos dadas, em sinal de amizade, sem pudor algum. Mulheres não se reparam quando passam, nem vaidosas são. O que vale mesmo, para todo mundo, é a beleza interior. Michael Jackson “virou” branco porque quis, não porque não era aceito como negro. Discriminação? Intolerância? Exclusão? Três palavras que não constam no dicionário.
As grandes guerras não usaram fogo. Nos canhões, ao invés de balas, eram disparadas flores. Os mais ricos, em um gesto de extrema bondade, repartem o que têm aos mais carentes. E sempre foi assim. Cachaça, maconha e pó não existem, não é preciso curar as mágoas, pois elas também não existem. Individualismo? Ganância? Não pertencem ao vocabulário popular.
É só amor, amor, amor. E como se não bastasse, AMOR com todas as letras maiúsculas. Um sentimento que não fica só nas páginas das cartas, dos diários, da internet. O mundo vive o ideal rippie de paz e amor. Amizades são para sempre. Casamentos também. Noivos seguem à risca a promessa de amar e ser fiel em todos os dias de suas vidas, feita diante de Deus. Ninguém nunca mente, não há motivos para inverdades.
Suicídio? Assassinato? Morte só por causas naturais. Tudo está em perfeita sintonia. Fronteiras, melanina e arianos, gatos e ratos. Dinheiro não é tudo. Político é o exemplo mor de decência. Não há necessidade de lei. Escravidão, não!
Ler, estudar, escrever é o que mais se faz. Educação em primeiro lugar, mas ela não é o futuro. Professores são os profissionais mais bem pagos. Não faltam empregos, as moradas são dignas, favela é uma peça de decoração. Sexo pago é uma bobagem, ninguém precisa vender o corpo. Pedofilia é um doce de padaria. As músicas feitas são as melhores, poesia genuína.
CPI significa Carinho Para Idoso. Se envelhece bem, com todo o respeito devido no trato. Antidepressivos são lendas. A comunicação é livre como nenhuma outra. Ditadura, inquisição, quem é Joana D´arc? Vladmir Herzog? Nada condiz com essa “verdade”. Tudo é certo como dois e dois são cinco.
A verdade (a verdadeira, são válidos os parênteses) dói, é um piso no calo, um dedo na cara, na ferida. Gera prejuízos, das mais distintas naturezas. Mexe com egos, vaidades, abala as relações humanas. Entonce, se é mentira que as pessoas querem, se é isso que as faz bem, que sejam ditas as inverdades, descaradamente, como tudo sempre é. O próprio mundo é uma grande mentira. Com o perdão da palavra os moralistinhas, esse sistema é mesmo um grande puteiro, um chiqueiro, um vespeiro, e todo mais “eiro” que possa ofender.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Em um luar que não é qualquer - parceria com Ângela Guimarães


Na aleluia de um sábado dado
O luar por nuvens tampado,
A vidania que venta,
Eis a solidão que não é de se estar só
É de ser sem ninguém
É de estar longe de alguém.

Ilusão que faz chorar sutilmente
Em um luar que não é qualquer
Poderia ser mais luar
A ilusão menos e o sutil só pra quando amar.

A vida poderia ser mais luar
Poderia ser mais beijo, mais acarinhar
Só não poderia ser solteira sempre
Ouvi dizer que a vida de meu bem quer se casar.

Case com ela!
Na aleluia de um sábado dado
Em um luar por nuvens tampado
Na ventania que vida.

Viva com ela!
Na lua que não é sempre de mel
Nas dores que às vezes são de mais amores
Nos ares que não são sempre céu

Em um lugar que não é sempre de luar.

Mutirão


Já saíram nas ruas de cara pintada. Derrubaram presidente, ditadura e revolucionaram a música, a poesia, a literatura. Em círculo, já dançaram samba-de-roda e brincaram de atirei-o-pau-no-gato, enrolaram pau-de-fita ao som da banda que nem só de sanfoneiro é. Tem a zabumba, o triângulo, a viola e o cantador. Tudo aquilo que pode ser chamado de coisa necessita ser mais de um. A própria V-I-D-A são várias letras juntas que formam um, porque ela é isso, um é o todo e todos são um.
E o certo é que ninguém consegue fazer grandes feitos sozinho. O sucesso é o resultado de um processo coletivo. Talvez por isso é que se tem tanta notícia de fracassos. As pessoas custam a entender isso e se tornam cada vez mais individualistas. Cada um no seu quadrado e os outros que circulem. Amargurada deve ser a vida desse povo, já que o que há de mais simples nesse mundo (e ao mesmo tempo nobre) não se pode fazer sozinho: nascer, amar e viver, nos mais diversos sentidos dos três verbos.
Tanto apego pelo afastamento é, em parte, um reflexo da nova cidade. Grandes centros, construções amontoadas, correria. O tempo aqui é precioso. Agora todo mundo trabalha fora, chega tarde em casa e nem sequer conhece os vizinhos. E tudo isso misturado à falta de disposição de mudar a situação. O individualismo é uma doença moderna que uns escolhem contrair, outros, no entanto, não. E cada um pode ser o seu próprio remédio. Mas a epidemia parece não ter fim.
Que a situação é alarmante, lá isso é. Mas nem tudo está perdido. Ainda existem lugares que mantêm vivo o espírito comunitário. Ainda se é possível encontrar grupos que se juntam pra bater uma laje a troco de amizade e um prato de feijoada. Tem gente também que se casa sem gastar muito. É só convidar a comunidade que na véspera do casório a latada é certa. Pedreiro vira garçom e dona de casa decoradora. Reformar a casa? Chama a turma que em três dias tudo fica pronto. Alguém, que não sei quem, em algum tempo, que não sei qual, disse que “ninguém é tão rico quem não precise de ajuda, e ninguém é tão pobre que não possa ajudar”.
E o homem que é dotado de inteligência, que tem o privilégio de pensar, parece ser deixado para trás pelos animais, que são irracionais, quando o assunto é sabedoria de vida. Abelhas se juntam quando algum membro da colméia é ameaçado e atacam o invasor. Pássaros voam juntos em forma de “v” para economizar energia do grupo. O galo sozinho não anuncia uma manhã. E as formigas, disciplinadas, enfileiradas, sabem bem estocar comida para não perecerem nos maus tempos.
Natureza e sobrenatureza confirmam a importância do não ser só. O próprio Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, três, de vez. E ciente de quão horrenda é a solidão, fez para Adão, sua criatura, uma companheira. E assim a humanidade se procriou, pela união. E pela tapioca e pelo fubá se tem o cuscuz. Pela terra, chuva, cana e pelo braço forte do sertanejo que se tem a cachaça e a rapadura e um combustível que sabe respeitar o ambiente que lhe deu origem. E é pela peleja e querer-bem de Chico do Gás e Sueli (painho e mainha) que você está tendo a possibilidade de ler esse modesto texto.
Bem, particularidades à parte, não se pode negar, está no ajuntamento do povo a solução de todos os males do mundo. Um mutirão universal precisa ser formado, para poder se bater a laje da maior de todas as construções: a de um novo mundo.

A sina de sofrê - trajetória de um cabra da peste


Quem o vê, vindo ao longe, a passos miúdos, com o seu uniforme preto e amarelo, pode até confundi-lo com um sofrê – passarinho de mesmas cores, conhecido pela astúcia. De perto, impossível não reconhecê-lo, as entradas que ameaçam o couro cabeludo e os óculos peculiares não deixam dúvida: “Mauro Edson da Silva, cabra da peste”, como o próprio “Seu Maro” se apresenta, com uma voz estridente, um sotaque carregado, sorriso no rosto e olhar cansado.
Acostumado com a vida sem novidades, seu Mauro nunca foi de acreditar em pessoas que diziam prever o futuro. Era como se já soubesse do seu próprio destino. Um dia, encontrou uma misteriosa cigana a atravancar o seu caminho. Ela, quando o viu, a andar pela ruas de Jeremoabo – cidade onde nasceu o então menino -, pediu a sua mão para ler. “Não dei não, mas ela ficou pedindo, insistindo, aí eu dei”. A mulher fez grandes revelações sobre o desacreditado jovem sertanejo. “Sua vida é desembaraçada. Você vai para uma cidade grande, ter um emprego, uma casa e um negócio. Se casará com gente da família, terão filhos e serão felizes”. As gargalhadas de descrença foram inevitáveis.
Primeiro de uma família de dez filhos, Mauro teve de ajudar em casa desde cedo. A vida era sofrida, de enxada na mão, plantando milho, feijão e mandioca na roça do pai. Vivia do que plantava. E a água, não sempre certeira, castigava Jeremoabo, no nordeste baiano, com a seca. A saída da pequena cidadezinha de origem se deu quando a idade de dezoito lhe bateu à porta.
Ia passear em Salvador, passar um final de semana apenas. Um primo já morava na cidade, viera trabalhar e acabou ficando. Seu Mauro aproveitou os dias de folga na capital e, antes de voltar pra casa, uma notícia. Ele tinha sido chamado para trabalhar na portaria de uma construtora, por indicação do primo. Na capital e nos portões, vive até hoje, com os seus incompletos cinqüenta anos.
O primeiro emprego formal não trouxe muitas dificuldades. Esperto, logo o porteiro aprendeu controlar entradas e saídas no prédio da construtora MRE, onde permaneceu por dois anos. De lá, foi para o Condomínio Tatiana, na Federação, que pagou mais pelos seus serviços. “Fiquei lá nove anos, quando eu saí um morador ainda chorou”, conta, sem modéstia. Ter de abandonar esse trabalho teve um motivo especial. Assumir uma nova responsabilidade exigia ganhar mais.
Mesmo em Salvador, Mauro ia sempre de volta à sua terra. A família e os amigos continuavam por lá e careciam da sua visita. Nessas idas e vindas, conheceu a irmã do cunhado, através dele: Analídia. Do primeiro encontro, seguiram mais quatro. Namoraram, a família aprovou e, na última vez, já estavam casados.
No civil, casaram numa quarta-feira. A cerimônia da igreja, no sábado, foi simples, com a presença de alguns amigos e familiares. Ao fim do “O que Deus uniu o homem não separa”, dito pelo vigário, a festa, como uma legítima do sertão, uma fartura de comida e cachaça. “Casamento de doutor”, relembra, com o sorriso largo.
“Três de janeiro de 87 o dia que a gente casou. Ele foi de férias pra lá e eu tive que aproveitar; casei e depois vim com ele”, palavras da esposa. A união já dura mais de duas décadas e a amada, para ele, não poupa elogios. “O Mauro é bom marido, uma pessoa muito boa”, acrescenta Analídia.
Vida nova, emprego novo. Depois de casado, seu Mauro vai para a TV Bahia. Ganhando o que precisava para manter a família, por lá fica doze anos. Guarda consigo lembranças boas, como as festas sempre freqüentes na emissora e o contato diário com os famosos que admirava, como o jornalista Casemiro Neto, de quem ficou amigo. Da portaria de lá aconteceu também um dos episódios mais tristes da sua vida. Foi um assalto à mão armada, no qual o porteiro viu a morte de perto. No final, tendo cumprido, com o coração na mão, as ordens dos bandidos, conseguiu sair ileso. “Foi muita ousadia deles, chegaram na cara limpa e levaram três armas que tinham lá”.
É nessa época de TV Bahia que a família cresceu. A primeira filha veio quando os pais estavam juntos há três anos. Lidiane, 19, sabe contar com orgulho a vida do progenitor: “meu pai não teve infância, trabalhou sempre e já passou até fome”. Das características dele que a menina lista, a que mais a incomoda é o ciúme exagerado. “Mesmo com a minha idade, ele não quer que eu namore”. Depois dela, vieram os gêmeos – menino e menina - de 13 anos. E a produção termina aí.
Da televisão foi para a construtora Santa Helena, onde mais gostou de estar. Assim como nos outros serviços, permaneceu por muito tempo lá. Foram dez anos de plano de saúde, motivo que mais o prendia na empresa. A demissão aconteceu por falta de obras. O medo do que podia acontecer não incomodou seu Mauro. Foi nesse momento que a última previsão, que lhe fizeram quando jovem, se cumpriu.
O negócio se chama Bar da Mangueira. Fica na parte de cima do sobradinho amarelo onde mora, na região do Cabula. Tem uma sinuca, um videogame, dois frízeres onde são guardadas as cervejas e um balcão que por trás ficam as aguardentes. Bem parecido com os botecos de interior, foi a salvação enquanto o chefe da família estava desempregado.
A possibilidade de trabalhar em casa, contudo, não agradou seu Mauro. Passou a vida nos portões, não sabia fazer outra coisa. Não é que gosta, mas foi obrigado a se acostumar, já que a falta de estudo não lhe oferecia opções. Aqui, já até tentou voltar pra escola, à noite, mas o desgaste e os atrasos inevitáveis lhe fizeram evadir.
Há três meses o porteiro experiente volta ao posto, dessa vez no Colégio Isba, em Ondina. Com um sistema diferente do que está acostumado, ainda está em processo de aprendizagem na instituição. “Ele está evoluindo, só é esquecido”, explica o seu colega de portaria, Neilton Carvalho, que dá umas dicas para o recém-chegado. A falta de memória é, para seu Mauro, um sinal que a velhice está chegando, o que não é ruim. “Falto só três anos pra aposentar”.
O Mangueira foi mantido e completa cinco anos, aberto dessa vez só à noite e no final de semana. Não é como antes, reúne mais os amigos, em torno de uma mesa, onde os copos das mais diversas bebidas dividem espaço com os causos e desabafos de problemas, contados em círculo.
As previsões desacreditadas se cumpriram. Sua saída, o emprego, o casamento, os filhos, o negócio. Agora quer encontrar outra cigana para ler de novo sua mão e lhe anunciar uma nova sorte: vida tranqüila. Diferentemente de quando morava em Jeremoabo, faz planos para o futuro. Quer voltar pra lá, cuidar da roça do pai e viver dessa vez melhor.
Enquanto nada do que planeja acontece, ainda fica por lá, mesmo uniforme, mesmo sorriso, mesmos olhos, jogando conversa fora quando nada há pra fazer, como a que pôde ser ouvida: “Eu tô dando entrevista (...) tinha um patrão que não dava entrevista de jeito nenhum, falava com ele direto: rapaz, tem que atender os `repórtis`”. Ao menos naquele dia, seu Mauro Edson da Silva, foi o patrão.